quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Despedidas e saudades

Chega o dia da partida e o sentimento mais exaltado é a saudade. Durante vinte e quatro dias o Atol das Rocas nos ensinou muito além do que a ciência almeja. A vivência constante ao lado de milhares de aves, crustáceos, peixes, moluscos e pessoas, se traduz numa experiência tão peculiar que jamais seria encontrada em qualquer aglomeração de páginas. 

Ilha do Farol na maré cheia

Cada detalhe confessa verdades de uma natureza ora clássica mãe, ora cruel com os menos aptos. E o todo? Ahh, esse é o suprassumo da harmonia conduzida sob o ritmo das marés.
Além disso, a mudança de rotina relacionada às necessidades básicas e compartilhamento de um novo cotidiano com pessoas até então desconhecidas, nos permitem exercitar questões humanas esquecidas pelo conforto e facilidade da vida em sociedade. A tão famosa coletividade, os exemplos que devem e não devem ser seguidos, a palavra certa ou errada que escapa quando os sentimentos residem à flor da pele, o detalhe da personalidade revelada a cada por do sol... Tudo e cada um reconstrói nossa forma de ver o outro.

Abraço amigo entre tartarugas verdes

Os inesgotáveis sargentinhos

Tubarão lixa

Só tenho a agradecer aos humanos que partilharam comigo esses dias agradáveis. A Maurizélia Brito (carinhosamente Zelinha), pelos inúmeros exemplos de conduta, altruísmo e bom humor. Ao Zah pela naturalidade que o cerca, pelas boas risadas e por ser “mala onda”. Ao Felipe, pela sensatez e parceria. E, por fim, ao Marcelo, pela dedicação às tartarugas verdes. Todos diferentes, mas convergem ideais comuns.

Equipe: Zah, Marcelo, Zelinha, Felipe e eu

Cafuçus

Pois é, e tudo isso provoca um sentimento sadio de saudade, aquele que a gente sente de véspera e que se mistura de forma sinérgica com a falta que a gente sente das terras continentais.

E é com esse saudosismo que me despeço dessa terra onde os grãos de areia moldam um lugar novo a cada dia, onde os azuis do mundo inteiro se encontram e onde pesquisadores vivenciam o sonho de poder contemplar a natureza de igual para igual com todos os seres que habitam esse paraíso.

Mergulho livre

Até breve

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Os moradores da ilha do Farol

O Atol das Rocas possui duas pequenas ilhas de areia, uma menor chamada Cemitério e outra que abriga a estação científica: a ilha do Farol. A segunda é repleta de moradores de todos os tipos, onde as aves trinta-réis são as que mais se destacam.
Ilha do Farol, cortada pela Baia da Lama, abrigo de pequenos tubarões
Aproximadamente 100 mil dessas barulhentas criaturinhas ocupam o atol. Cada uma tem seu espaço definido e se o vizinho tropeçar e invadir a casa alheia é logo expulso sob gritos e bicadas.
Trinta-réis-do-manto-negro (Onychoprion fuscatus)

As viuvinhas preferem ficar próximas as vegetações e nos arredores da estação científica. Com semblante concentrado e olhar arisco elas estão quase sempre em silêncio, quebrado apenas nos rituais de cortejo e quando protege seu ninho. Já as viuvinhas negras costumam permanecer em grupo nas proximidades das ruínas e a noite descansam nas placas solares.
Viiuvinha marrom (Anous stolidus)

Viuvinha negra (Anous minutis)

As três espécies de atobás se diferenciam bastante tanto no fenótipo quanto no comportamento. O branco é o que fica mais próximo da estação científica, ocupando pontos dispersos no ninhal da ilha. Assim como outras aves, quebram a monotonia do dia coçando os teimosos carrapatos com auxílio do grande bico e patas. Os atobás de patas vermelhas estão em menor quantidade e imperam nos poucos coqueiros da ilha do Farol. Já o atobá marrom gosta de voar em bandos e passa o tempo nas ruínas do farol, mas preferem a ilha do Cemitério! Um ou outro que não gosta de pescar invade o ninhal para se alimentar de filhotes de trinta-réis.
Atobá de patas vermelhas (Sula sula)

Atobá branco ou mascarado (Sula dactylatra)

Atobá marrom (Sula leucogaster)

Outras aves que não nidificam na ilha (fragata, maçaricos, garças ...) sempre dão o ar da formosura para descanso e alimentação. 
Dentre os crustáceos, três espécies principais ocupam parcimoniosamente esse paraíso arenoso. Os aratus, que exibem vermelhos exuberantes, são ariscos e quase sempre estão em grupos. O Jeca passa o dia relaxando sob qualquer tipo de substrato e no final da tarde sai para se alimentar. Oportunista, ele come praticamente quase tudo que é orgânico e se ovos de aves ou filhotes de tartarugas bobearem, caem nas quelas desse bicho “come quieto”. Abrigadas nas tocas construídas acima da linha da maré, as lindíssimas marias-farinha se protegem da luz do dia, saindo apenas após a despedida do sol. Curiosas e medrosas correm rapidamente para o mar ao primeiro sinal de perigo, deixando apenas os vultos de suas patas apressadinhas.
Aratu (Grapsus grapsus)

Maria farinha (Ocypode quadrata)

Jeca (Johngarthia lagostoma)
Outros habitantes menos conspícuos sempre aparecem na ilha principal, dentre catitas exóticas, gafanhotos, formigas, tesourinhas, escorpiões, baratas e diversos pequenos quase notáveis.
E a cada temporada o bicho homem também ocupa a ilha do Farol. Eles normalmente desenvolvem pesquisas científicas em prol da conservação e proteção dos demais moradores dessa rara formação do Atlântico Sul. Aqui, como os demais, eles são parte do ecossistema, seguem o ritmo imposto pelo mar, ventos, ondas e animais. Voltam no tempo para readaptar-se a um ambiente onde não há espécie soberana, apenas indivíduos interagindo conforme as leis estocásticas da natureza.

Equipe mais que entrosada (Eu, Zar, Zelinha, Marcelo e Felipe)

Parceria! =)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Uma rotina salgadamente doce

O atol bem cedo nos amanhece. Os primeiros raios de sol são tão intensos que encandeia qualquer preguiça e aliados ao primeiro gole de café despertam e dão energia para um novo dia cheio de trabalhos.
As pesquisas que estão sendo desenvolvidas nessa temporada dependem da maré. Quando o atol se encontra quase completamente exposto, saímos para coletas de polvos e de tartarugas verdes.
A piscina das tartarugas na maré baixa. Ao fundo a ilha do farol com a estação científica
A cada polvo encontrado, registramos dados bióticos e abióticos e coletamos o indivíduo para estudos de filogeografia e ecologia. É um animal bastante perspicaz com incrível repertório de camuflagem. Localizá-lo é extremamente complicado, pois vive em tocas no substrato, camufla cores e texturas e ainda por cima pode lançar um forte jato de tinta escura que confunde predadores. Como diz nosso companheiro de temporada, Zar: o polvo é o animal com o maior aparato tecnológico do fundo do mar! rs
Coleta do primeiro polvo

Felipe, Zar e o Marcelo estão coletando sangue de tartaruga verde para análise de componentes tóxicos (Instituto Marcos Daniel) e sempre que posso dou uma forcinha. São animais bastante velozes e ariscos, diferente das tartarugas de pente, mais tranquilas e serenas. Capturá-los requer uma quantidade considerável de pernadas.
Devolver a tartaruga para piscina
Finalizados os trabalhos, voltamos para estação e tudo procede quase tão normal como no mundo lá fora. Após o almoço a louça toda é lavada na areia fina e quente próximo a estação científica. O banho acontece no mar, de preferência na maré cheia. 

A verdadeira "areada" na louça
Banho sem paredes, experimentem!

A noite cai, a lua ilumina tudo que pode e o seu reflexo na areia branca promove um claro tom de noite, daquele assim mesmo, inimaginável. E ao som das milhares de aves que dividem sua moradia conosco, a gente deita e quase levita num sono cheio de sede!


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Coqueiros à vista

A bordo do catamarã Borandá, comandado pelo Capitão Zeca, quatros pesquisadores (Marcelo, Felipe, Zar e eu), juntamente com a chefe da Reserva Maurizélia Brito e o marujo Jarian partimos do Iate Clube de Natal com destino ao Atol das Rocas. Por volta de meio dia de onze de novembro as velas foram içadas. Deixamos as águas calmas do rio Potengi, atravessamos as águas turbulentas da boca da barra, navegamos pelo verde claro da plataforma continental até chegarmos ao intenso azul do alto mar.

A viagem a bordo do Borandá foi bastante tranquila, Iemanjá estava de bom humor, o vento soprava despreocupado e rapidamente o sol nos deu adeus. Durante a noite todos deveriam permanecer dentro da embarcação por questão de segurança e, dessa forma, o sono veio mais cedo que de costume. Dormi tão profundamente que nem vi o tempo passar. Duas horas após despertar, às onze horas de doze de novembro, já avistávamos os coqueiros e a areia absurdamente branca da ilha.
Aproximadamente oito viagens de bote da ilha até o veleiro (e vice-versa) foram realizadas para desembarcar e embarcar material e equipe. A última, levando o restante da equipe, foi surpreendida por uma onda teimosa que obrigou os pesquisadores a pularem na água. Apenas um susto, no final todos estavam bem!
Então, às 16 horas o Borandá partiu e ficamos nós cinco para mais uma temporada de pesquisa e aprendizado nesse lugar onde a natureza mostra sua face encantadora e, por vezes, surpreendentemente cruel.


To be continued...

domingo, 10 de novembro de 2013

Destino: Atol das Rocas

Para finalizar esse ano cheio boas novas acadêmicas e de trabalhos em lugares incríveis, nada como fazer parte de uma expedição científica ao lugar mais bonito do Brasil, a Reserva Biológica de proteção integral Atol das Rocas (ICMBio).
Durante a estadia estarei desenvolvendo minha pesquisa com ecologia e filogeografia da espécie de polvo tropical Octopus insularis.


Localização do Atol das Rocas

O Atol das Rocas é um recife oval com 3,7 Km de comprimento e 2,5 Km de largura. Localizado a 267 Km de Natal é o único atol do Atlântico Sul. Por esse e milhões de outros motivos é importante a preservação total da ilha e seu entorno. Alguns polêmicos não o consideram um atol verdadeiro, pois não possui corais como principais bioconstrutores. Ao invés disso, o anel recifal é formado principalmente por algas calcárias, foraminíferos e gastrópodes vermetídeos. 

O contraste entre a areia absurdamente branca e um azul multi-tons, o coro de aves marinhas, a dança das sardinhas e a natureza em sua mais crua performance tornam esse lugar único. Uma experiência que vai além do profissional, que eleva o espírito e desperta nossos mais belos instintos adormecidos.


domingo, 22 de setembro de 2013

Mente só

Todo mundo foi embora.
O amigo ainda não chegou ao bar.
Não respondem minhas mensagens.
A internet caiu!!!
E agora, o que vou fazer só comigo?
É incrivelmente paradoxal a maneira como muitos se sentem sufocados pela própria companhia. A solidão efêmera ou duradoura causando inquietação, insegurança, ansiedade... Como se o eu de cada um estivesse diluído no nós, tal como partículas de sal imersas num corpo d’água: para sempre homogêneas. E quantos prejuízos resultam da falta de autoconhecimento!
A  massa ruidosa, dentro da qual estamos inseridos, rouba a atenção de nós mesmos, transformando pessoas em reféns de coisas e pessoas.
Divulgando/divagando: olhar para si permite descobrir qualidades soterradas por prioridades falhas; encontrar defeitos até então despercebidos por uma autoconfiança distorcida. Em um encontro consigo é possível interpretar esse quebra cabeça desconexo, com número impreciso de peças, mas coerente à medida que se prossegue o tempo dedicado.
São tantos os mundos a serem prospectados no subconsciente, tantas respostas de perguntas que buscamos em projeções de pessoas igualmente perdidas, tantos medos e aflições que sequer existem de fato...
Descobrir os prazeres da sua própria companhia ajuda a melhor conviver com os tão falados outros, além de aguçar a percepção de sinais indicadores de soluções.
E é isso, aventurar-se dentro de si pode te surpreender. Por você, pratique a solidão!

Sábio solitário "insularis"

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Rumo à ilha de pedra

Na tarde de terça-feira, 9 de julho de 2013, partimos do porto de Natal no Transmar III, um pequeno barco pesqueiro que se estende por 19 m, rumo à minúscula ilha de pedra no meio do Atlântico. A viagem teria uma parada em Fernando de Noronha, para o embarque da Patrícia, última pessoa a compor a equipe de quatro pesquisadores da expedição 382, juntamente com Gustavo, Carlos e eu. Até lá o tempo estava fechado, horizonte contorcido, o mar inquieto parecia reagir a nossa ansiedade e judiava da embarcação com fortes balanços e ondas quebrando a estibordo. Pelo caminho golfinhos, peixes voadores e diversas aves rompiam a tensão e monotonia da viagem.
Beliche dos tripulantes do Transmar III. Aconchegante de um jeito diferente.

Na madrugada de quinta-feira chegamos a Noronha, ilha completamente envolvida pela neblina que nos seguia e acometida por uma chuva fina, indecisa se caía ou ia embora. Pela manhã embarcamos todos, agora a navegação fluía, o tempo colaborando com nossa impaciência. O céu nos parecia íntimo, desnudo e colorido. Tudo corria bem até que na manhã do sábado, a 70 milhas do nosso destino, a bomba do motor resolver estourar, e junto com ela nossa esperança de desembarcar naquela noite. Foram 13 horas à deriva, até a chegada do Transmar I, que estava na ilha de Pedra e voltou para nos rebocar! As horas dobraram suas durações, o corpo rejeitava a desconfortável cama, a mente recusava leituras, nada para fazer a não ser contemplar a corrente brincar com o pequeno barco.
         
                                       Reboque do Transmar III a 0°01' N 30°25' W

Durante a deriva os dourados mordiam as iscas.


Esperar...


Faltando 9 milhas para chegar na ilha, apertávamos os olhos para visualizar um ínfimo ponto de luz emitida pelo farol e que se perdia no horizonte. Finalmente às 20h30 do domingo, depois de 6 dias e 5 noites, o Transmar III navegava nos arredores do Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Enquanto o bote que dá acesso à ilha percorria o caminho entre o barco e o píer da enseada, todos aguardavam o desembarque em silêncio. Um silêncio que bradava alto o desejo dos quatros pesquisadores por terra firme e que estampava a nova lição de paciência e respeito imposta pelo oceano Atlântico.

sábado, 16 de março de 2013

Há tempo




Então, o tempo! A quarta dimensão no tecido do cosmo, o mais implacável e persistente dos companheiros. O tempo que constantemente oscila sua duração de acordo com nossas ocupações, mesmo parecendo uma unidade imutável. Incessantemente provoca o intemperismo químico, mecânico e espiritual de nossas vidas, formando belas e erodidas paisagens do saber.
Na sua dualidade, o tempo alimenta a saudade, enquanto esclarece as dúvidas; é amigo da diversão e inimigo do tédio; ordena fatos, ao passo que desorganiza realidades; molha mesmo quando não chove e colore dias nublados. Ele, que quando infantil demora, ao passar dos anos, relativiza-se como efêmero, esvaindo-se do nosso controle.
Há quem tente enganá-lo, matá-lo, deixar que passe despercebido, mas ele sempre está por perto, segurando nossa mão em direção à linha de chegada.
Dizem os mais antigos amigos do tempo que ele é remédio, que cura desilusões e desafetos com doses infalíveis de conformidade e que de bônus te ensina como não mais adoecer.
Na ciência é uma grandeza física definida de forma controversa. Na vida se expressa materialmente na forma de cada linha que vai surgindo nos nossos rostos, deixando marcas de histórias jamais esquecidas.