quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Dia da vida!!!

Hoje, três de setembro é o dia, a noite, a aurora, o crepúsculo do biólogo. Humanos, que no esforço para compreender a vida, não dão nomes ao tempo, que se doam à natureza a qualquer momento e têm o privilégio de estar inserido profundamente na dinâmica que rege a breve passada dos seres pela Terra.

Gente que respira respiração, que enche os olhos diante do fenômeno da vida e que, muitas vezes, tem a oportunidade de novamente viver nos moldes da origem, interagindo diretamente com tantas formas e cores em aglomerados de células.

O verdadeiro biólogo




é remunerado pelo meio e aprende lições que a academia jamais seria capaz de ensinar. Nos enche de esperança estar diante da eclosão de um filhote, vemos a fortaleza criada pela união quando mergulhamos com um imenso cardume de pequenos peixes, percebemos nossas limitações sob uma revoada de aves e nos damos conta que não há rótulo nos seres, apenas uma voraz necessidade de se manter vivo e de passar seus genes!

Me orgulho enormemente de fazer parte do time que luta para compreender os detalhes regentes da vida, desde a complexidade do DNA até os fascinantes processos ecossistêmicos. Time esse composto por todos aqueles que praticam sustentabilidade em prol da conservação e que abraçam a causa de forma holística em detrimento de futilidades criadas por uma sociedade que insiste em se apartar do meio vivo que a envolve.

Parabéns aos seres do mar, do mato, dos ares, das copas das árvores, dos laboratórios e das ruas... Parabéns aos conservacionistas, pescadores, mateiros, naturalistas, militantes, professores...Todo mundo, sim, tem um curioso biólogo dentro de si!



terça-feira, 1 de julho de 2014

A pesca marinha e estuarina no Brasil: estudos de caso multidisciplinares

Saindo do forno:

Versão em pdf do livro “A pesca marinha e estuarina no Brasil: estudos de caso multidisciplinares”.   

"Em seu conjunto, o livro procura apresentar um panorama integrado e abrangente da pesca brasileira e de seus problemas de gestão. A abrangência geográfica é ampla, incluindo estudos de 11 dos 17 estados brasileiros com linha de costa marinha, desde a exploração da serra no Amapá até a pesca de emalhe no sul do Rio Grande do Sul."

Organizadores:
Manuel Haimovici
José Milton Andriguetto Filho
Patricia Sfair Sunye

Para Download, [url=https://www.sendspace.com/file/5e84b8]Clique Aqui!!!/url

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

É Pouco

Quando eu crescer quero viver em uma pequena cidade chamada Pouco. É um lugar não muito distante, de fácil acesso e com beleza tão peculiar que apenas alguns conseguem captá-la. Em Pouco não existe acúmulo, nem ganância, muito menos hierarquia. Em contrapartida há fartura de sorrisos, altruísmo e bom senso.
Sem sucesso tentaram implementar o dinheiro em Pouco, mas foi motivo de piada, pois ninguém via sentido em credibilizar papéis. Os Pouquenses têm um supermercado verde no quintal de casa e durante o café da tarde, trocam mercadorias de acordo com suas necessidades.
As pessoas que ali habitam exercitam diariamente atividades que são cruciais para o bem-estar. Algumas vezes por semana costumam caminhar na praia do Desapego, dissipando qualquer vestígio de tristeza em gotas suavemente salgadas. A igreja de Pouco é um porto com muitos barcos sem dono. Quando cada um necessita de elevação espiritual, desatraca do trapiche e se deixa levar pelas ondas, voltando sempre com os últimos raios de sol...
A escola é itinerante e é comum os professores trocarem de lugar com seus alunos. Todos gostam de frequentar aulas que acontecem em diferentes cenários ao longo da semana. O saber é provocado nos alunos e eles se deixam levar pela curiosidade do conhecimento.
A grande vantagem de morar em Pouco é que as almas, de diferentes formas, encontram a felicidade em cada pequeno detalhe do espaço. Tudo está de forma suficiente ao alcance de todos e isso basta para viver bem.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Despedidas e saudades

Chega o dia da partida e o sentimento mais exaltado é a saudade. Durante vinte e quatro dias o Atol das Rocas nos ensinou muito além do que a ciência almeja. A vivência constante ao lado de milhares de aves, crustáceos, peixes, moluscos e pessoas, se traduz numa experiência tão peculiar que jamais seria encontrada em qualquer aglomeração de páginas. 

Ilha do Farol na maré cheia

Cada detalhe confessa verdades de uma natureza ora clássica mãe, ora cruel com os menos aptos. E o todo? Ahh, esse é o suprassumo da harmonia conduzida sob o ritmo das marés.
Além disso, a mudança de rotina relacionada às necessidades básicas e compartilhamento de um novo cotidiano com pessoas até então desconhecidas, nos permitem exercitar questões humanas esquecidas pelo conforto e facilidade da vida em sociedade. A tão famosa coletividade, os exemplos que devem e não devem ser seguidos, a palavra certa ou errada que escapa quando os sentimentos residem à flor da pele, o detalhe da personalidade revelada a cada por do sol... Tudo e cada um reconstrói nossa forma de ver o outro.

Abraço amigo entre tartarugas verdes

Os inesgotáveis sargentinhos

Tubarão lixa

Só tenho a agradecer aos humanos que partilharam comigo esses dias agradáveis. A Maurizélia Brito (carinhosamente Zelinha), pelos inúmeros exemplos de conduta, altruísmo e bom humor. Ao Zah pela naturalidade que o cerca, pelas boas risadas e por ser “mala onda”. Ao Felipe, pela sensatez e parceria. E, por fim, ao Marcelo, pela dedicação às tartarugas verdes. Todos diferentes, mas convergem ideais comuns.

Equipe: Zah, Marcelo, Zelinha, Felipe e eu

Cafuçus

Pois é, e tudo isso provoca um sentimento sadio de saudade, aquele que a gente sente de véspera e que se mistura de forma sinérgica com a falta que a gente sente das terras continentais.

E é com esse saudosismo que me despeço dessa terra onde os grãos de areia moldam um lugar novo a cada dia, onde os azuis do mundo inteiro se encontram e onde pesquisadores vivenciam o sonho de poder contemplar a natureza de igual para igual com todos os seres que habitam esse paraíso.

Mergulho livre

Até breve

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Os moradores da ilha do Farol

O Atol das Rocas possui duas pequenas ilhas de areia, uma menor chamada Cemitério e outra que abriga a estação científica: a ilha do Farol. A segunda é repleta de moradores de todos os tipos, onde as aves trinta-réis são as que mais se destacam.
Ilha do Farol, cortada pela Baia da Lama, abrigo de pequenos tubarões
Aproximadamente 100 mil dessas barulhentas criaturinhas ocupam o atol. Cada uma tem seu espaço definido e se o vizinho tropeçar e invadir a casa alheia é logo expulso sob gritos e bicadas.
Trinta-réis-do-manto-negro (Onychoprion fuscatus)

As viuvinhas preferem ficar próximas as vegetações e nos arredores da estação científica. Com semblante concentrado e olhar arisco elas estão quase sempre em silêncio, quebrado apenas nos rituais de cortejo e quando protege seu ninho. Já as viuvinhas negras costumam permanecer em grupo nas proximidades das ruínas e a noite descansam nas placas solares.
Viiuvinha marrom (Anous stolidus)

Viuvinha negra (Anous minutis)

As três espécies de atobás se diferenciam bastante tanto no fenótipo quanto no comportamento. O branco é o que fica mais próximo da estação científica, ocupando pontos dispersos no ninhal da ilha. Assim como outras aves, quebram a monotonia do dia coçando os teimosos carrapatos com auxílio do grande bico e patas. Os atobás de patas vermelhas estão em menor quantidade e imperam nos poucos coqueiros da ilha do Farol. Já o atobá marrom gosta de voar em bandos e passa o tempo nas ruínas do farol, mas preferem a ilha do Cemitério! Um ou outro que não gosta de pescar invade o ninhal para se alimentar de filhotes de trinta-réis.
Atobá de patas vermelhas (Sula sula)

Atobá branco ou mascarado (Sula dactylatra)

Atobá marrom (Sula leucogaster)

Outras aves que não nidificam na ilha (fragata, maçaricos, garças ...) sempre dão o ar da formosura para descanso e alimentação. 
Dentre os crustáceos, três espécies principais ocupam parcimoniosamente esse paraíso arenoso. Os aratus, que exibem vermelhos exuberantes, são ariscos e quase sempre estão em grupos. O Jeca passa o dia relaxando sob qualquer tipo de substrato e no final da tarde sai para se alimentar. Oportunista, ele come praticamente quase tudo que é orgânico e se ovos de aves ou filhotes de tartarugas bobearem, caem nas quelas desse bicho “come quieto”. Abrigadas nas tocas construídas acima da linha da maré, as lindíssimas marias-farinha se protegem da luz do dia, saindo apenas após a despedida do sol. Curiosas e medrosas correm rapidamente para o mar ao primeiro sinal de perigo, deixando apenas os vultos de suas patas apressadinhas.
Aratu (Grapsus grapsus)

Maria farinha (Ocypode quadrata)

Jeca (Johngarthia lagostoma)
Outros habitantes menos conspícuos sempre aparecem na ilha principal, dentre catitas exóticas, gafanhotos, formigas, tesourinhas, escorpiões, baratas e diversos pequenos quase notáveis.
E a cada temporada o bicho homem também ocupa a ilha do Farol. Eles normalmente desenvolvem pesquisas científicas em prol da conservação e proteção dos demais moradores dessa rara formação do Atlântico Sul. Aqui, como os demais, eles são parte do ecossistema, seguem o ritmo imposto pelo mar, ventos, ondas e animais. Voltam no tempo para readaptar-se a um ambiente onde não há espécie soberana, apenas indivíduos interagindo conforme as leis estocásticas da natureza.

Equipe mais que entrosada (Eu, Zar, Zelinha, Marcelo e Felipe)

Parceria! =)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Uma rotina salgadamente doce

O atol bem cedo nos amanhece. Os primeiros raios de sol são tão intensos que encandeia qualquer preguiça e aliados ao primeiro gole de café despertam e dão energia para um novo dia cheio de trabalhos.
As pesquisas que estão sendo desenvolvidas nessa temporada dependem da maré. Quando o atol se encontra quase completamente exposto, saímos para coletas de polvos e de tartarugas verdes.
A piscina das tartarugas na maré baixa. Ao fundo a ilha do farol com a estação científica
A cada polvo encontrado, registramos dados bióticos e abióticos e coletamos o indivíduo para estudos de filogeografia e ecologia. É um animal bastante perspicaz com incrível repertório de camuflagem. Localizá-lo é extremamente complicado, pois vive em tocas no substrato, camufla cores e texturas e ainda por cima pode lançar um forte jato de tinta escura que confunde predadores. Como diz nosso companheiro de temporada, Zar: o polvo é o animal com o maior aparato tecnológico do fundo do mar! rs
Coleta do primeiro polvo

Felipe, Zar e o Marcelo estão coletando sangue de tartaruga verde para análise de componentes tóxicos (Instituto Marcos Daniel) e sempre que posso dou uma forcinha. São animais bastante velozes e ariscos, diferente das tartarugas de pente, mais tranquilas e serenas. Capturá-los requer uma quantidade considerável de pernadas.
Devolver a tartaruga para piscina
Finalizados os trabalhos, voltamos para estação e tudo procede quase tão normal como no mundo lá fora. Após o almoço a louça toda é lavada na areia fina e quente próximo a estação científica. O banho acontece no mar, de preferência na maré cheia. 

A verdadeira "areada" na louça
Banho sem paredes, experimentem!

A noite cai, a lua ilumina tudo que pode e o seu reflexo na areia branca promove um claro tom de noite, daquele assim mesmo, inimaginável. E ao som das milhares de aves que dividem sua moradia conosco, a gente deita e quase levita num sono cheio de sede!


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Coqueiros à vista

A bordo do catamarã Borandá, comandado pelo Capitão Zeca, quatros pesquisadores (Marcelo, Felipe, Zar e eu), juntamente com a chefe da Reserva Maurizélia Brito e o marujo Jarian partimos do Iate Clube de Natal com destino ao Atol das Rocas. Por volta de meio dia de onze de novembro as velas foram içadas. Deixamos as águas calmas do rio Potengi, atravessamos as águas turbulentas da boca da barra, navegamos pelo verde claro da plataforma continental até chegarmos ao intenso azul do alto mar.

A viagem a bordo do Borandá foi bastante tranquila, Iemanjá estava de bom humor, o vento soprava despreocupado e rapidamente o sol nos deu adeus. Durante a noite todos deveriam permanecer dentro da embarcação por questão de segurança e, dessa forma, o sono veio mais cedo que de costume. Dormi tão profundamente que nem vi o tempo passar. Duas horas após despertar, às onze horas de doze de novembro, já avistávamos os coqueiros e a areia absurdamente branca da ilha.
Aproximadamente oito viagens de bote da ilha até o veleiro (e vice-versa) foram realizadas para desembarcar e embarcar material e equipe. A última, levando o restante da equipe, foi surpreendida por uma onda teimosa que obrigou os pesquisadores a pularem na água. Apenas um susto, no final todos estavam bem!
Então, às 16 horas o Borandá partiu e ficamos nós cinco para mais uma temporada de pesquisa e aprendizado nesse lugar onde a natureza mostra sua face encantadora e, por vezes, surpreendentemente cruel.


To be continued...